Em função do renovado e repressivo Estado de Emergência, quem precisar de sair à rua, movido por razões incompreendidas pela arbitrariedade institucional, deve ser muito discreto, imperceptível, quase invisível. E, claro está, adotar as devidas precauções de caráter sanitário, para não contagiar nem ser contagiado pelo novo Coronavírus.
“Não é necessário saíres de casa. Fica à mesa e escuta. Não escutes sequer, espera. Não esperes sequer, fica completamente quieto e só. O mundo oferecer-se-á para que o desmascares, não lhe resta outra coisa. Arrebatado, contorcer-se-á perante ti.”
"Portugal é o único país que suspende o direito de greve no Estado de Emergência. Nem na Índia do fascista Modi. Nem a Itália, a lidar com a pior situação, o fez! Em Itália foram suspendidas as greves só nos sectores essenciais relacionados com o combate ao Virus; Nos EUA em lado nenhum; em Espanha só o direito de reunião foi limitado, não o de greve. Aliás, em Itália foi à ameaça de uma greve geral, de fixos e precários, que levou o Governo a aprovar a proibição dos despedimento durante a pandemia. Na França o direito à greve está garantido, apesar do Estado de Emergência ter sido decretado, bem como o recolher obrigatório.
[...] Em Portugal aprovou-se o Estado de excepção para permitir de facto os despedimentos sem resistência… ainda a tinta não tinha secado e a Groundforce hoje [19.03] aproveitou e já anunciou o despedimento de mais de 500 trabalhadores e a redução salarial de outros 500 – que nem greve podem fazer. [...] A seguir vem a TAP, restaurantes, hotéis, serviços, é assim que vamos “sair da crise”, condenando milhões à fome para deixar intocados os prémios e dividendos de meia dúzia de accionistas – só estes, desde 2008 pagariam 6 meses de salários a todos na Groundforce.
Não ocorreu ao Governo português limitar – com o Decreto de Emergência – o direito à remuneração dos accionistas, nacionalizando os lucros destas empresas, ou pelo menos os dividendos recentes, para garantir salários a milhões de trabalhadores e suas famílias. Ocorreu – com entusiasmo mediático – pôr fim ao direito à greve, ou seja, suprimir o direito democrático de quem trabalha lutar pelo seu trabalho, que é o direito à sua vida e dos seus filhos. Sim, a democracia foi suspensa, e foi pelo Partido Socialista. Com o apoio entusiástico da direita, [...] e – quem diria – o voto a favor do Bloco de Esquerda e a abstenção do PCP, que se vêem assim frente a uma crise moral e ética sem precedentes.
[...] Quem vive do trabalho não está só de quarentena, a lutar em conjunto pela vida, hoje. A estes – aos mais pobres, mais frágeis, mais precários, sem almofada, não lhes foi pedido que ficassem em casa, só. Foi-lhes exigida, com força de decreto militar, que abdicassem do futuro. E aqui, ao contrário da pandemia, não se pode dizer que estamos todos no mesmo barco. Se o vírus não escolhe classes sociais, a crise económica é clara sobre quem vai ficar para trás. E o Governo já disse de que lado está.
Lembro só, em nota final, que estes trabalhadores, nos portos, aeroportos, AutoEuropa, fizeram greves, plenários e paralisações, espontâneas, a pedir para pararem a produção, e usarem material de protecção nos casos em que são sectores de abastecimento (porto e aeroporto). Ou seja as greves antes do Estado de Emergência ajudaram a conter e não a espalhar o contágio. Foi este medo, que os trabalhadores exijam como foi na Auto Europa ficar em casa, que levou o Governo a aprovar este Decreto, e com esta especificidade, anti-democrática, única na Europa." Raquel Varela
"Assim como o patrimônio ambiental urbano pode ser considerado a materialização das relações sociais que interagem no espaço da cidade, funcionando como elemento de identidade, a preservação deve ser vista como parte de uma luta. A luta pela apropriação da cidade visando resguardar seus significados culturais que testemunham modos de vida e experiências." Cássia Magaldi
"No início, havia a imagem. Para onde quer que nos viremos, existe a imagem. Por todo o lado através do mundo, o homem deixou vestígios das suas faculdades imaginativas sob a forma de desenhos feitos na rocha e que vão desde os tempos mais remotos do paleolítico até à época moderna. Estes desenhos destinavam-se a comunicar mensagens e muitos deles constituíram aquilo a que chamamos “os pré-anunciadores da escrita”, utilizando processos de descrição-representação que apenas retinham um desenvolvimento esquemático de representações de coisas reais." Martine Joly
Antes de acontecerem, as mudanças estruturais parecem improváveis. Depois de terem ocorrido, percebe-se como eram inevitáveis. Inevitáveis e, muitas vezes, necessárias. Before taking place, profound changes seem very unlikely to happen. When they arrive, we understand how inevitable they were. Sometimes, even necessary.
Num reencontro fortuito passamos diante desta pintura antiga. Pareceu-nos que merecia um restauro. No porta-malas apenas trazíamos uns poucos estênceis e tinta branca e preta. Não estando na posse de estênceis maiores, o pássaro e o personagem engravatado tiveram de ser retocados de improviso, totalmente à mão livre. Resultou.